quinta-feira, 17 de agosto de 2017

NARCISITUDE


                       

                        Para Adriel Evangelista

O que é o amor senão
um espelho?

Quando pensas que amas,
apenas idolatras teu deus pessoal,
apenas idolatras a ti mesmo.

O que te agrada aos olhos,
assim como aos ouvidos,
são teus semelhantes,
apenas isto.

Achas, acaso,
que teu amor é maior
que o do teu inimigo?

Achas, ainda,
que teu amor é divino
e que proteges tuas crias
diferentemente do amor das hienas?

Achas ainda que amas
ou apenas te enganas? 

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

A NOIVA

Autor?

Penso na morte,
e penso como uma obsessão.

Como se ela existisse, concretamente,
uma figura, uma mulher.

Muito melhor a morte do que o nada,
o nada: escuro, frio, infinito,
assim como o medo.

Espreito a morte, não como o fim,
mas como o desejo de todo mortal:
a imortalidade.

Sim, a imortalidade estaria na morte
tal e qual a imaginou Schopenhauer.

Imagino a morte
não como aquela figura assombrosa,
uma caveira, vestida de negro,
a ceifadeira à mão,
tirada de um poema da idade média
ou da pena de Gustavo Doré.

Imagino a morte com o rosto
da menina mais bonita
que amei em minha infância,
e olha que amei a muitas!

Aquela menina a quem nunca tive
coragem de me declarar,
pois, ou me faltavam palavras
(e eram tantas as que gostaria de
pronunciar, que se atropelavam
umas nas outras),
ou as poucas que eu conseguia balbuciar
saiam cansadas, de pernas bambas,
era mais difícil do que caminhar sobre muletas.

(Ah a poliomielite!)

Morte,
a mais linda menina de minha infância,
de meus sonhos, de minhas fantasias,

(ou as prostitutas bonitas, de saias curtas,
pernas grossas e sorrisos fáceis
que eu ousava olhar, apenas olhar,
pois o mais era pecado
e surgiam feito flores em terreno fértil,
às nossas vistas da ladeira da rua da zona
na cidade do Cabo de Santo Agostinho,
onde Pizon descobrira o Brasil
e eu o sexo)

mas já agora mulher,
os seios ferindo a leve roupa
com que está vestida.

(Uma indiscrição:
a morte não usa calcinhas!)

Ao invés de ceifadeira,
a morte traz a sua mão
em oferenda à minha.

Um lindo sorriso
e uma boca de lábios grossos,
tudo anuncia,
e, com gestos leves,
a morte me convida
a partirmos em viagem ao seu reino.

Existindo ou não outra vida,
ou sendo tudo um longo e eterno sono,
eu não sei,
sei apenas que foi uma boa morte
e eu gozei.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

POR QUE ESTAMOS AQUI


Por que estamos aqui
e pelo que clamamos?

Com certeza não podemos compreender
o que somos.

O homem na cruz humilhado,
a  à prova,
as roupas mijadas
como um bêbado,
e que clamava, como um homem,
a Deus, não foi atendido.

Por que eu serei
poeta, ex-magro, o colesterol a pique,
a indignação a mil,
morto de infarto ou de covardia?

quinta-feira, 27 de julho de 2017

POR VEZES A POESIA ABANDONA-ME

Dores de amor — Vetor de Stock #3989220

Por vezes a poesia abandona-me:
mãe que esquece o filho!

E bate-me a porta à cara.

Infeliz, abandono-me à vida,
ao álcool, ao amor
(na verdade ao sexo!),
triste caminho?

quinta-feira, 20 de julho de 2017

PRAZERES REVISITADA

Pena restritiva de Direitos Tomar cerveja num bar com amigos e o sentido da ressocializao
Autor?

Eu mesmo num dia inspirado,
pois é raro que eu não esteja melancólico,
apesar do prozac.

Bebidas,
de preferência ao lado de uma mulher
bonita,
criando um clima de um romance de
Bukowski.

Amigos que gostem de arte e filosofia.
O resto são convenções.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

QUAL É A TUA, POETA?


Que importa que você seja
um ótimo poeta,
se, na vida, no dia-a-dia concreto,
você é um perfeito canalha?

Que importa se nos seus poemas
a palavra liberdade os impregna,
se, no trânsito, você se torna uma fera?

Se, ao entrar no elevador, não sai da sua boca
um bom dia, mas nos seus versos você é gentil.

Nada disso importa, a arte divorciada da vida,
a arte longe do phatos Aristotélico,
de onde vem a poesia – arché – não provém
também a cidadania?

Pegue os seus livros e os seus poemas
e os enfie garganta adentro da sua malvadeza.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

SEXO E POESIA

Autor?

O poeta vai, descobridor,
e olha pelos cantos dos olhos
a folha branca, ofuscante,
e o poeta sorve o seu fetiche,
a folha, a folha branca, virgem,
que nem Flaubert às botinas de Bovary.

E o poeta busca o prazer,
busca gozar,
lançar o seu sêmen
sobre o branco da folha.

Ejacular
o esperma das palavras
num coito solitário
entre seus desejos, anseios e tesão.

Amar,
mesmo que, entre criaturas,
o que mais fazemos seja desamar.

Que falta me faz, nesta madrugada,
um poema,
um corpo macio de mulher,
o sexo,
conhecer o segredo da eternidade das estrelas,
um momento mágico,
me sentir feliz,
Deus?