quinta-feira, 19 de outubro de 2017

BAR DO COPO SUJO


A chuva não pára, incessante,
parecendo mais um cenário
de um conto de Tchecov.

A chuva, torrencial, chorando:
uma muralha chinesa?
Uma legião do exército romano?
O general inverno russo,
para pesadelo de Hitler, Churchill ou Napoleão?

Mas de verdade,
de verdade mesmo,
é apenas chuva
que um bom guarda-chuva
consegue vencer.

Mas um poeta,
numa terça-feira à noite,
bêbado,
imagina um monstro sagrado
a separá-lo do seu grande amor.

E como vencê-lo?
E o poeta, cada vez mais bêbado,
no Bar do Copo Sujo,
insiste, Dona Detinha, a saideira,
a chuva há de parar.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

BIBLIOTECA


A minha pequena biblioteca
composta de duas estantes
e no máximo mil e um livros
não causa pesadelos a um bom leitor.

Não chega a ser um labirinto descrito por Borges,
(cabe bem quietinha num pequeno quarto
do meu pequeno apartamento)
ou um pesadelo imaginado por Kafka
(pesadelo que vivemos todos os dias,
seja no trânsito, na busca por justiça,
ou em não entendermos qual o sentido da vida)
penetrá-la e desvendá-la por inteiro.

Mas, por que não a venço,
se conheço seus caminhos, segredos
e percalços?

Todo bom boêmio,
todo poeta
tem vários amores.

Meu corpo e minha alma
possuem daquele fogo de que fala Camões.

O mesmo prazer de ter em minhas mãos
um livro, e lê-lo;
o tenho também pelo sexo, e praticá-lo;
pela noite, e vivê-la;
pelo álcool, e embriagar-me;
pelos amigos, e desfrutá-los;
enfim, o prazer da busca do êxtase! 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

CABO DE SANTO AGOSTINHO


Nunca vivi a minha infância qual um menino da minha idade
Minino! -,
caçar passarinho,
jogar bola em terreno baldio,
espiar as meninas nuas tomando banho de rio,
tomar banho de rio.

Meu refúgio foram os livros.

Como posso recordar, sem inveja, as lembranças de Bandeira,
Rua da União...

Feito um marginal,
a traição como matador de aluguel,
a poliomielite me atacou na esquina
(paradoxalmente, como amo os marginais!)
e as minhas pernas me fizeram mais falta na infância
do que um bom atacante às seleções de Telê Santana
(aquilo é que era futebol! Pura arte!
Mas faltava um atacante...)

Quando me tornei homem,
(confesso que hoje preferiria a infância,
mesmo sem as pernas!)
descobri que os livros
não preencheram os espaços
da falta de empinar papagaio,
de correr atrás de uma bola de gude,
de brincar de pega com as meninas na hora do recreio,
no pátio do colégio,
de namorar as putas no mato,
que nem Manuel e Java, filhos de Dona Terezinha,
Toinho, filho de Dona Cina,
meu irmão Itamárcio e o primo Itamar.

Que falta me molhar na chuva:
Não pude!

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

CERVANTES VIVESSE HOJE


Cervantes vivesse hoje,
e Dom Quixote
montado em seu Bucéfalo,
- ao fundo, Sancho Pança,
as mãos cobrindo os olhos
de medo e pavor –
a lança em riste do cavaleiro
investiria contra os aparelhos de televisão?
Ou cooptado
estrelaria uma trama das oito?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

DEUS


Deus,
se existir, é um grande poeta.

O maior poeta dentre todos,
e os bons homens,
assim como Chico e Adriel,
seus melhores poemas.

As mulheres,
sejam belas ou não,
seus mais deliciosos poemas,
pois que a beleza não se transmite
apenas pela visão,
que o diga outra arte: a música.

Pois que a beleza é ser leve,
companheira, é ter a pele macia,
um bom humor
e gemer na hora do sexo.

Mas,
como acontece a qualquer poeta,
acontece a Deus,
que é feito a nossa própria imagem:
existem aqueles poemas-rascunhos,
fadados ao lixo ou ao esquecimento,
que insistem em viver
independente da vontade do autor.

E o lixo se faz poesia!
- Será a ausência da arte
ou o mal existe?
Sobrevivem os péssimos poemas
e o mundo é habitado
por homens-rascunhos.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DRINQUE


Tenho ao alcance da minha,
a tua solidão.

Por que não te procuro?

Por que vago na noite sem ti?

Na mão, uma cuba libre,
na vitrola, Elis,
na estante, A Ilha,
no meu país vagam
o mesmo medo, a mesma dor,
a mesma mágoa.

O fim é de um romance barato,
de um poema arcaico,
morrer, morrer de amor.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

E OS DEUSES PIEDOSOS, COMO SÓ OS HOMENS PODEM SER...


Viveu na época em que
a Terra era habitada por homens,
deuses, semideuses e gigantes.

Cavaleiro andante
e sedento de aventuras,
nem parecia uma criatura humana.

O vento era a sua bússola,
o coração, o seu comandante.

Não distinguia entre o bem
ou o mal,
apenas entre o prazer
e a dor,
mas não aquele prazer
de que nos fala Epicuro.

Um dia seu peito sentiu
o amor,
e por essas armadilhas que nos
prega o destino,
o cavaleiro cedeu,
bem certo de que a idade  fazia sentir
seu fardo.

Mas a vida é luta
que só aos poderosos pode sucumbir.

E ao defender honra e comida,
a sua lança, em  pontaria,
traspassou o rim da amada...

Eis aí a lenda da origem do álcool.