quinta-feira, 19 de abril de 2018

CORRAM, LÁ VÊM OS AMALDIÇOADOS

Famílias inteiras assassinadas pelo soldados dos EUA no Iraque

Vim,
vi,
olhei
e não entendi.

Vim,
vi,
entreguei-me
e fiquei emocionado.

Vim,                                                
vi,
não tinhas forças
e as busquei em um vinho sagrado.

Vim
vi,
provei
e fiquei viciado.

Vim,                                                                          
vi,
lutei

mas fui derrotado.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

OS CONSELHOS DE MINHA AVÓ


Minha avó dizia:
minino, não se brinca com as coisas de Deus,
pois isto é pecado, e ele castiga,
castiga, sim Senhor!

Mas sabe como é minino,
brincalhão, curioso...
e o minino brincou.

Deus passou a ser Sued,
passou a ser assunto de piadas,
que eu não resistia, e contava,
e contava, e contava.

Além de outros pecados,
mais cabeludos, 
como “bater” punheta,
pensando na beleza das pernas
da minha linda professorinha
de letras,
que um dia nos leu Os meninos carvoeiros,
do poeta Manuel Bandeira,
ai, senti tanta dor!

Tudo isso até minino cansar de brincar!
E virar homem...

E um dia, já crescido e cheio de interrogações.
O minino homem pensou,
lembrando-se das palavras da avó,
petrificado, com medo, suando:
será que por que brinquei com deus ele me castigou?

Será por que brinquei com ele,
Deus destruiu o Iraque,
e enforcou o Saddam?

Será por que brinquei com ele,
Deus destruiu a Líbia
e humilhou o Kadafi?

Será que pelos meus pecados
quer exterminar os palestinos, como Hitler
queria exterminar os judeus
ou como a Europa quer exterminar os ciganos?

Deus me perdoa, perdoa, perdoa!
Com todas as forças e fé,
- fé que não tenho -
perdoa o minino,
que não queria tomar banho,
por que estava jogando bola de gude,
botão de mesa,
pinhão ou conversando safadeza
com outros mininos, amigos de infância,
que também não ouviam os conselhos das avós.

Foi só uma brincadeirinha de nada,
coisa de minino safado.

Não deixai mais, deus, pelas minhas faltas e pecados,
e por não seguir os conselhos de minha avó,
que milhões morram de fome, de sede, de guerras, de doenças, de indiferença...

A mim bastam a pólio e a depressão, além da velhice calhorda,
que me deixa numa cadeira de rodas,
e o pau, que não quer mais subir!

Apaga, meu anjo da guarda, apaga,
do teu caderninho,
os meus pecadinhos de minino,
por favor, imploro, apaga.

Depois mostra a deus, teu criador,
que eu não preciso mais ser castigado,
punido, torturado, enlouquecido,
com a dor do meu próximo,
que eu sei, é culpa minha,
pelos meus pecados,
por não acreditar na minha avó!

Santo anjo do senhor,
meu zeloso guardador,
interceda por mim,
pois, com todo o respeito,
parece que deus dorme, ronca e peida
sobre os vermes que criou.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

LEALDADE


Gostaria de ser fiel.
Estou sendo sincero,
gostaria sim, muito.

Mas a minha alma,
a minha essência, é de bandoleiro,
errante,
e meu coração e cérebro se processam
a mil.

Não, não, não,
não sou infiel à minha família,
parentes ou amigos,
estou sempre presente,
podendo ou não podendo,
curtindo ou me phodendo.
Não, não, não,
não sou infiel às minhas convicções,
por nada abriria mãos delas,
mesmo diante da morte
que é o nosso maior bem,
talvez o único.

Não, não, não, 
minha família, meus amigos,
mesmo aqueles apenas de mesa
de bar,
meus desejos, o álcool, a poesia,
minha confiança total no socialismo,
meu ateísmo que não quer convencer
ninguém, mas apenas viver em paz,
estão guardados, dentro de uma caixa,
feita de diamantes,
e incrustada no meu coração.

Não, não, não,
não posso colocar a culpa da
minha infidelidade apenas na genética,
ou posso?

A beleza, a arte, o carinho, o encanto,
o mimo, o despertar fazem renascer
a química do amor, do desejo e do sexo.

Como gostaria de ser fiel
- nem mesmo deus sabe dos meus segredos -
pois ele não existe.

Talvez a arte, a poesia, a visão,
o olfato, ah o olfato...
Casado, não consigo deixar de me apaixonar,
quase que diariamente, por um poema
- ou uma mulher -
que sorri, que olha, que passeia:
em busca de agrado, de carinho, de amor, de felicidade.

Horror, horror, horror!
- obrigado, Shakespeare -
como gostaria de ser fiel,
apesar de ser leal.

quinta-feira, 29 de março de 2018

ESPELHOS, EM TRÊS REFLEXOS




REFLEXO I

A primeira vez que um espelho mágico 
chamou a minha atenção,
iam-se lá cinco ou seis anos de vida.

Foi na casa de minha tia Nete,
um espelho grande,
quase do tamanho de uma porta,
um gigante!
Fiquei fascinado.

Olhava-o por vários minutos
esperando que meu reflexo
errasse algum movimento da coreografia
dos meus braços e caretas.
Imaginava se haveria um mundo dentro
da masmorra onde se aprisionara o meu reflexo,
com certeza influência de Alice.

Era bom o mundo,
eram bons os sonhos,
criança,
não imaginava o terror da existência.


REFLEXO II

Usava barbas na adolescência,
para parecer mais velho para as meninas.

Diante do espelho
aparava o excesso de pelos
e desenhava algumas linhas.

Apesar da poliomielite,
via, na minha imagem refletida,
um jovem forte e bonito,
alegre e disposto a lutar por um mundo melhor.

Vez ou outra,
quando alguma lágrima nascia,
em virtude de algum percalço,
ou das pequenas e grandes derrotas
que se iam acumulando
no meu lixão da vida,
o espelho, de alguma forma,
avisava-me, você é apenas um,
existem bilhões no planeta.

O fracasso na música,
- contrabaixo, violão, piano-
um poeta que ninguém lia,
um casamento aos dezoito anos,
a necessidade de trabalhar para sustentar meu rebento,
o corre-corre da faculdade,
as paixões fora do casamento,
fizeram-me esquecer da magia do espelho
que vivi aos cinco ou seis anos.
  

REFLEXO III

Acabo de completar cinquenta e um anos,
olho no espelho e não me reconheço.
Os sonhos de mudar o mundo através do socialismo
ainda persistem mais fortes do que nunca,
mas sei que já não será no meu tempo,
talvez no tempo dos meus filhos
ou no tempo dos meus netos.

No espelho do meu banheiro,
vejo um homem com nuvens brancas nos cabelos,
os sulcos no meu rosto lembram as rotas abertas nas selvas,
a facão, à foice e a martelo.

O sorriso meio sem graça,
os dentes amarelados,
- efeito dos cigarros, do bom álcool e do invisível tempo -
indicam que a vida passou,
e passa, enquanto escrevo este poema,
no dia do meu aniversário.

Junto aos amigos,
em companhia do velho álcool,
remédio para as dores reumáticas,
e para grandes derrotas e perdas da vida,
lembramos, emocionados:
a queda do muro de Berlim,
a capitulação da URSS,
o neoliberalismo,
que quase me levou à loucura,
por minha impotência,
por nada poder fazer,
pela revolução que não vinha.

A vitória de Lula e a esperança de uma sociedade socialista,
a decepção.
O medo do retrocesso via judiciário...

Evito conversar com minha imagem refletida
naquele artefato mágico da infância.

As lutas viraram rotinas, e não são mais tão épicas,
- até conseguir cortar as unhas dos pés,
já é uma grande vitória.
Os remédios que me salvam,
- também da depressão -
são as amizades,
as conversas na mesa de bar,
e continuar sonhando, sempre,
um Sancho Pança, orgulhoso,
cevado a antidepressivos e ansiolíticos.

É recorrente lembrar,
- e me faz rir - 
a minha descoberta
aos cinco ou seis anos,
na casa da minha Tia Nete:
o espelho mágico.

E como na cantiga de minha infância:
esperar, esperar, esperar,
até a morte chegar!
quem sabe, como um presente,
no dia do meu próximo aniversário.

quinta-feira, 22 de março de 2018

SER POETA, UMA MALDIÇÃO



Minha primeira paixão foi Liu,
namoradinha de infância,
tínhamos dez anos, mais ou menos,
ela era a menina mais linda que eu já havia visto,
jurava que nos casaríamos,
mas não lembro como tudo acabou.

A segunda paixão veio através do tubo mágico
que era a televisão,
naquele momento da vida, apenas magia e diversão:
Betty Faria, encantadoramente linda
na novela Cavalo de Aço.

Nunca perdia um capítulo!
Ela era a mulher mais linda que eu já havia visto,
e jurava que um dia nos conheceríamos e nos casaríamos,
sendo felizes para sempre.

Ser poeta é assim, gente,
se apaixonar diariamente por uma mulher,
um sorriso, um poema, um amigo, um pássaro,
uma revolução.

Ser poeta é não ser deste mundo,
buscar a felicidade nas paixões e delas se alimentar;
por isso, o poeta é boêmio e adora a noite,
quando bêbado canta e sorri, faz longas declarações de amor,
que pela manhã, se esvaem como a possibilidade de ser infinitamente feliz.

Ser poeta é buscar no mundo algo que não é deste mundo,
coisas que não são possíveis,
prazeres que não são duradouros, ou verdadeiros?
Viver sorvendo emoções a todos os momentos,
insaciável,
criar um novo mundo através da poesia
e fingir que é feliz.

Ser poeta é muita maldição.

quinta-feira, 15 de março de 2018

EM PRIMEIRO LUGAR O SEXO!

 

"É de se apostar que toda ideia pública, 
toda convenção aceita seja uma tolice, 
pois se tornou conveniente à maioria."
(Edgar Allan Poe)

Em primeiro lugar o sexo!
É para isso que existimos,
legar a outro animal
o nosso código genético.

Mas através da moral
fingimos não entender
nosso simples destino
e criamos mitos.

O resto são costumes...

quinta-feira, 8 de março de 2018

FRUSTRAÇÕES, O POEMA



 “Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”
(Darcy Ribeiro)

Não ter nascido lindo feito Elvis Presley ou Marlon Brando
não ter feito uma canção com Chico Buarque ou com Bob Dylan
não ter as pernas da Isadora Duncan ou as do Maradona
nem a habilidade de um Garrincha, de um Heraldo do Monte.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter namorado a Marilyn Monroe ou a Audrey Hepburn
não ter sido amado pela Lucélia Santos ou pela Débora Bloch
não ter a voz de Cauby Peixoto nem a de Elis Regina
não ter a poesia de Manuel Bandeira, de Mario Quintana ou de Carlos Maia.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter lutado na guerra civil espanhola
nem ter morrido ao lado de Che na Bolívia
não conseguir beber tanto quanto o Jaguar ou o Erickson Luna
não ter tanto amores e amigos como o Vinícius de Moraes
Ou o Adriel Evangelista.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter o humor de um Groucho Marx ou de um JJ
não ter a inteligência nem o conhecimento de Nietzsche ou de Chico Pena Branca
não ter trabalhado em Hair ou em A Doce Vida
não ter escrito Dom Casmurro nem Cem Anos de Solidão.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter batido os recordes de João do Pulo ou de UsainBolt, mesmo sem as pernas 
nem ter sido um talento político à moda de Brizola ou de Darcy Ribeiro
não ter sido um professor ou jornalista, mas apenas um pequeno burocrata de oitava categoria e enfadado
nunca ter jogado uma pelada nas areias da praia de Gaibu ou dançado no Clube das Pás sábado à noite de sapato branco.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ter sido ignorado pelo vírus da pólio nem pelo terror da depressão
não ter viajado a Cuba ou a Pasárgada
não ter sido abortado ou nem mesmo concebido
não ter nascido alienado, parvo, burro.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”

Não ser um porco, um cavalo ou um passarinho
não ter a defesa dos espinhos ou cheiro das flores
nunca ter sido água, ar, terra ou fogo, cigano ou palestino
não ter sido nada, nunca ter existido, nunca ter respirado.

“Fracassei em tudo o que sonhei na vida.”