quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A POESIA É MORTE


                        
A poesia é morte,
não há outro tema.
 
A infância que passou,
o amor que se foi...
 
Qual outro enredo senão a ruína?
O nascimento do filho?
O novo amor?
A recente trepada?
Passado.
 
Não existe o presente,
a não ser por um instante que já foi.
 
Não existe o futuro,
o futuro é presente,
o presente é passado. 
Morte, a minha noiva eterna!

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ABRO-ME AO MUNDO


Abro-me ao mundo!
Venham sobre mim
todas as dores e desejos:
besta quem pensar que posso suportá-los,
não tenho os ombros de Drummond.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

ALMEJO O NADA

 

Almejo o nada.

O poema abstrato:
sem forma, sem sentimentos,
sem cor.

Almejo a morte!

O que sou?
Uma marionete em mãos divinas?

Qual a essência do mal?
Se vim do bem: Deus?

Quem és, Senhor?
Quem sou?
És um sádico? Um alquimista?

E eu apenas um verme
ingrato ao meu criador?

Almejo o nada: sem dor!

O que seria a vida, sem dor,
senão o paraíso?

Almejo o quanto antes
o último poema!
O infarto libertador!

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

AOS DEZ ANOS DE IDADE

"Mas havia o sol da manhã e o rum
que eu sabia vinha de Cuba
junto com uma grande dose de igualdade."


Aos dez anos de idade,
o meu mundo ainda era azul,
apesar da poliomielite que aos poucos
enegrecia meu coração,
transformando minhas pernas em fardos
e em poesia as de Garrincha.

Baleias, também azuis,
navegavam na minha imaginação
e nos mares de Pontas de Pedra e Gaibu.

Pensamentos, palavras, mulheres nuas
e o frevo me esquentavam a alma
junto com marchinhas de carnaval.

E as colchas de retalhos de Vó Lídia
esquentavam minhas pernas
nas noites frias de minha vida.

Mas havia o sol da manhã e o rum
que eu sabia vinha de Cuba
junto com uma grande dose de igualdade.

E tudo enchia os meus olhos e a minha vidinha:
mulheres de verdade desfilavam de biquínis
e elas enchiam meus olhos
e me torturavam de desejos.

Era doce a vida, era doce o mar,
ainda não havia a desilusão do amor,
da amizade e da política.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

BAR DO COPO SUJO


A chuva não pára, incessante,
parecendo mais um cenário
de um conto de Tchecov.

A chuva, torrencial, chorando:
uma muralha chinesa?
Uma legião do exército romano?
O general inverno russo,
para pesadelo de Hitler, Churchill ou Napoleão?

Mas de verdade,
de verdade mesmo,
é apenas chuva
que um bom guarda-chuva
consegue vencer.

Mas um poeta,
numa terça-feira à noite,
bêbado,
imagina um monstro sagrado
a separá-lo do seu grande amor.

E como vencê-lo?
E o poeta, cada vez mais bêbado,
no Bar do Copo Sujo,
insiste, Dona Detinha, a saideira,
a chuva há de parar.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

BIBLIOTECA


A minha pequena biblioteca
composta de duas estantes
e no máximo mil e um livros
não causa pesadelos a um bom leitor.

Não chega a ser um labirinto descrito por Borges,
(cabe bem quietinha num pequeno quarto
do meu pequeno apartamento)
ou um pesadelo imaginado por Kafka
(pesadelo que vivemos todos os dias,
seja no trânsito, na busca por justiça,
ou em não entendermos qual o sentido da vida)
penetrá-la e desvendá-la por inteiro.

Mas, por que não a venço,
se conheço seus caminhos, segredos
e percalços?

Todo bom boêmio,
todo poeta
tem vários amores.

Meu corpo e minha alma
possuem daquele fogo de que fala Camões.

O mesmo prazer de ter em minhas mãos
um livro, e lê-lo;
o tenho também pelo sexo, e praticá-lo;
pela noite, e vivê-la;
pelo álcool, e embriagar-me;
pelos amigos, e desfrutá-los;
enfim, o prazer da busca do êxtase! 

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

CABO DE SANTO AGOSTINHO


Nunca vivi a minha infância qual um menino da minha idade
Minino! -,
caçar passarinho,
jogar bola em terreno baldio,
espiar as meninas nuas tomando banho de rio,
tomar banho de rio.

Meu refúgio foram os livros.

Como posso recordar, sem inveja, as lembranças de Bandeira,
Rua da União...

Feito um marginal,
a traição como matador de aluguel,
a poliomielite me atacou na esquina
(paradoxalmente, como amo os marginais!)
e as minhas pernas me fizeram mais falta na infância
do que um bom atacante às seleções de Telê Santana
(aquilo é que era futebol! Pura arte!
Mas faltava um atacante...)

Quando me tornei homem,
(confesso que hoje preferiria a infância,
mesmo sem as pernas!)
descobri que os livros
não preencheram os espaços
da falta de empinar papagaio,
de correr atrás de uma bola de gude,
de brincar de pega com as meninas na hora do recreio,
no pátio do colégio,
de namorar as putas no mato,
que nem Manuel e Java, filhos de Dona Terezinha,
Toinho, filho de Dona Cina,
meu irmão Itamárcio e o primo Itamar.

Que falta me molhar na chuva:
Não pude!