quinta-feira, 22 de junho de 2017

TEORIA OU DÚVIDA

 

Para quantas pessoas no mundo
é importante conhecer a estrutura de um romance?

Quais as formas possíveis de um poema?

Para a maioria das pessoas do mundo
é importante pensar filosoficamente?

O mundo é feito para a maioria
ou para a minoria?

Onde está a verdade?
Na massa? Na Democracia?

Onde está a verdade?
Na minoria?
Ou no ditador?

Onde está a loucura?
Na poesia?

quinta-feira, 15 de junho de 2017

A VINGANÇA DO POETA



Para Roque Braz Filho

Poesias vêm e vão
como o amor,
pássaro a bicar teus grãos,
ônibus de linha,
dor de barriga,
a colegial de pernas grossas
que todos os dias desfila
em frente ao Bar 13 de Maio, de seu Hélio.

Poesias vêm e vão,
não te preocupes,
não te desesperes,
se hoje as perdes,
amanhã te chegarão:
que nos importam as musas?

quinta-feira, 8 de junho de 2017

VOCÊ ME MOSTRA UM ÁS


Você me mostra um ás,
a maior carta do jogo.

Fico sem saber o que fazer.

Fosse um jogo de xadrez,
seria xeque-mate,
mas não é um jogo,
e sim apenas a vida.

Ficamos trocando cartas,
enquanto a morte não vem.

(Está pronto, seu lobo?)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

VOO


Voo sempre em direção
a ela,
tentando tocar com minhas
mãos
a mão desta arte:
a Poesia.

Mas ela dá voos rasantes,
Enquanto eu mal consigo
me pôr sobre as pernas:
pesa
a força da idade
e da poliomielite.

Mas o que mais pesa
mesmo,
de um peso descomunal,
titânico,
é o peso da incerteza:
o
 destino final!

quinta-feira, 25 de maio de 2017

SONHOS


Sonhos...
Não sonhos de amor:
eu, minha amada e o gozo
enroscados em um só.

Mas sonhos estranhos,
pesadelos
em que vingam a solidão e a dor,
e o chão, daquela que seria
minha casa ou prisão,
todo apinhado de meninos mortos.1



1 Obrigado, Quintana!

quinta-feira, 18 de maio de 2017

CANTA PARA MIM, LIA


Canta para mim, Lia
as canções que só tu
e vó Lídia sabiam cantar,
que esta vida está
que é uma dor só.

O amor vai devagar,
enquanto os anos correm
a olhos vistos,
trazendo o desespero,
além, é claro, do reumatismo.

Medo tenho de que a solidão,
minha fiel companheira,
seja minha última paixão.

O corpo já não me obedece
as ordens sem reclamar,
o sexo que antes era prazer
hoje me traz pesadelos
e noites de insônia.

A poesia
(que seria a minha vida sem ela, Alberto?)
ainda me ocorre de momentos em momentos,
e é quase sempre feita de lembranças,
de reclamos, de detalhes, do que um dia fui.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

SAUDADES


Com certeza morrerei sem nunca mais rever
Silvana Spreafico,
como amei essa mulher.

Saudades do amor.

Tristeza por ser findo aquele tempo tão maravilhoso.

Com mais certeza ainda, morrerei
sem nunca rever o meu amigo André,
amigo de ginásio,
amigo que me acompanhava em minha tímida solidão
nas horas do recreio no Imaculado Coração de Maria.

Saudades da amizade.

Felicidade por ser findo aquele tempo tão cruel.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

É-ME IMPOSSÍVEL AMAR A UMA MULHER APENAS

                                                                                             
É-me impossível amar a uma mulher apenas.

Por acaso amas a um único dos teus filhos
ou dos teus amigos?

Amas apenas o teu pai em detrimento de tua mãe?

Amas a tua mão esquerda e desprezas a direita?

E dos poemas de Manuel Bandeira, Mario Quintana e
Alberto da Cunha Melo, amas apenas a um ou a vários?

É-me impossível amar apenas a uma mulher.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

POEMA DA QUASE PERFEIÇÃO


Se não mijássemos,
se não cagássemos,
se não peidássemos,
se não fedêssemos,
se não apodrecêssemos,
se não guerreássemos,
se não mentíssemos,
se não traíssemos,
se não mutilássemos
se não roubássemos,
se não fingíssemos,
se não fenecêssemos...
Que serezinhos arrogantes seríamos.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

SOLIDÃO


Aquela figura que avisto à rua da janela
é ela?
Ou apenas a vontade de que ela exista?

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O QUE MAIS DESEJO HOJE EM VIDA


O que mais desejo hoje em vida
é a morte.

Anseio pelo dia de minha morte
como o homem anseia o poder.

 de imaginá-la, chego a sentir um regozijo
igual ao gozo final quando faço sexo.

A morte em toda a sua plenitude.

O sono eterno sem a existência da manhã,
do nascer do sol, do relógio, da dor,
do medo, do amor, da fome.

Uma noite eternamente linda.

Não! Não posso conceber que haja
outra vida após a morte.

Uma única apenas  me é insuportável!

A morte, o nada em sua mais pura essência!
Tão bela quanto uma mulher nua,
(imagino a beleza despida de Belinda!)
a morte, o nada sacrilegicamente sem poesia!

quinta-feira, 6 de abril de 2017

ITALIANINHA


                                                                Para Rosângela, a Italianinha

Para onde caminhas com teu corpo branco como a neve?
O que levas em teu coração e em tuas mãos macias?

Tocar-te é saber que o prazer existe,
olhar-te é ter visões que só aos deuses,
aos poetas, aos loucos ou aos bêbados [1]
ousa-se revelar.

E que se passa em teu coraçãozinho?
Fosse eu um deus e te destinaria todas as razões
que fazem a felicidade.

Mas que posso senão adorar-te,
minha deusa branca?

Que posso senão sentir a tua pele, sorver os teus beijos,
rir o teu riso, sofrer com teu sofrimento?
Sou teu escravo, ordena-me e serei feliz.


[1] Obrigado, Sebastião Vila Nova.

quinta-feira, 30 de março de 2017

POEMA DO DESABAFO



Dedico este poema a todos que, como Vinícius de Moraes,
considerem o uísque o melhor amigo do homem.


Quando nasci em Carpina, em 1962,
para uma vida de merda,[1]
não havia nenhum anjo safado de plantão,[2]
um bêbado, um louco e um poeta[3] então me disseram:
vai, Itárcio, se fode na vida.[4]

Com um ano de idade, a pólio me abraçou
como uma camisa de força a um louco
e me deixou sequelas no corpo e na alma.

Aos dez anos me descobri poeta,
mas não contei para ninguém,
até hoje poucos me sabem poeta
(ou poucos me leem?).

Cresci, amei, casei, tive filhos,
amei e casei, amei e casei novamente,
depois amei, amei, amei, amo
e continuarei a amar,
até o dia em que o deus de Mário Quintana
canse da minha cara.

Escrevi poemas[5], escrevi contos[6],
toquei contrabaixo com meu primo Ítalo,
que me apresentou à MPB:
Chico, Caetano, Belchior, Ednardo.

Mesmo aleijado, cursei a faculdade,
abandonei outros dois cursos com os quais não me identifiquei,
abandonei também algumas pessoas
outras me abandonaram, e mais outras, e mais outras.

Tive a minha primeira crise de depressão aos 23 anos de idade,
e ela nunca mais me abandonou.

Para sobreviver, fiz vários concursos públicos,
passei em vários, trabalhei em cinco,
dos quais um de nível superior.
Em outro de nível superior, fui chamado, mas não quis,
Em outro, fui preterido:
Meu mandado de segurança durou doze anos para ser julgado,
parece-me que a justiça é lenta
(Ou será impressão? Serão meus óculos vencidos?)

Cursei uma pós-graduação,
passei numa seleção de mestrado,
o qual não concluí por falta de saco.

No meu emprego atual, várias vezes fui premiado
(em quatro edições, três prêmios)
por minha dedicação, qualidade dos meus trabalhos,
produtividade etc.

Afinal, é de lá que ganho para o gim das crianças[7].

Publiquei dois livros de poesias,
(Se Não Canto Pelo Menos Grito, 1983
e Apocalipse e Outros Poemas, 1989)
publiquei um livro de contos
(A Construção e Outros Contos, 1991).

Estudei um pouco de canto e gravei um CD
(Maracatu Pra Ela, 2003)[8].

Afora o que se refere à arte e ao amor,
todo o resto que falei  em cima,
para mim, é merda,
só valendo como moeda nesta sociedade capitalista
em que somos obrigados a cumprir pena.

Mas, como no poema de Drummond,
sempre nos etiquetam um rótulo:
ladrão, bicha, maconheiro[9], comunista, cachaceiro,
menino do prozac, ateu.

Enquanto isso, os políticos de plantão negociam nosso país.

E, como na música do Rei:
“E que tudo mais vá tomar no cu”[10].


[1] Obrigado, Ferreira Gullar.
[2] Obrigado, Chico Buarque.
[3] Obrigado, Sebastião Vila Nova.
[4] Obrigado, Drummond.
[5] Obrigado, Bandeira.
[6] Obrigado, Machado de Assis.
[7] Obrigado, Belchior.
[8] Obrigado, Adriel, Chico, Muriçoca, Climério e Ledjane Sara.
[9] Obrigado, Cazuza.
[10] Obrigado, Jean Genet.