quinta-feira, 29 de março de 2018

ESPELHOS, EM TRÊS REFLEXOS




REFLEXO I

A primeira vez que um espelho mágico 
chamou a minha atenção,
iam-se lá cinco ou seis anos de vida.

Foi na casa de minha tia Nete,
um espelho grande,
quase do tamanho de uma porta,
um gigante!
Fiquei fascinado.

Olhava-o por vários minutos
esperando que meu reflexo
errasse algum movimento da coreografia
dos meus braços e caretas.
Imaginava se haveria um mundo dentro
da masmorra onde se aprisionara o meu reflexo,
com certeza influência de Alice.

Era bom o mundo,
eram bons os sonhos,
criança,
não imaginava o terror da existência.


REFLEXO II

Usava barbas na adolescência,
para parecer mais velho para as meninas.

Diante do espelho
aparava o excesso de pelos
e desenhava algumas linhas.

Apesar da poliomielite,
via, na minha imagem refletida,
um jovem forte e bonito,
alegre e disposto a lutar por um mundo melhor.

Vez ou outra,
quando alguma lágrima nascia,
em virtude de algum percalço,
ou das pequenas e grandes derrotas
que se iam acumulando
no meu lixão da vida,
o espelho, de alguma forma,
avisava-me, você é apenas um,
existem bilhões no planeta.

O fracasso na música,
- contrabaixo, violão, piano-
um poeta que ninguém lia,
um casamento aos dezoito anos,
a necessidade de trabalhar para sustentar meu rebento,
o corre-corre da faculdade,
as paixões fora do casamento,
fizeram-me esquecer da magia do espelho
que vivi aos cinco ou seis anos.
  

REFLEXO III

Acabo de completar cinquenta e um anos,
olho no espelho e não me reconheço.
Os sonhos de mudar o mundo através do socialismo
ainda persistem mais fortes do que nunca,
mas sei que já não será no meu tempo,
talvez no tempo dos meus filhos
ou no tempo dos meus netos.

No espelho do meu banheiro,
vejo um homem com nuvens brancas nos cabelos,
os sulcos no meu rosto lembram as rotas abertas nas selvas,
a facão, à foice e a martelo.

O sorriso meio sem graça,
os dentes amarelados,
- efeito dos cigarros, do bom álcool e do invisível tempo -
indicam que a vida passou,
e passa, enquanto escrevo este poema,
no dia do meu aniversário.

Junto aos amigos,
em companhia do velho álcool,
remédio para as dores reumáticas,
e para grandes derrotas e perdas da vida,
lembramos, emocionados:
a queda do muro de Berlim,
a capitulação da URSS,
o neoliberalismo,
que quase me levou à loucura,
por minha impotência,
por nada poder fazer,
pela revolução que não vinha.

A vitória de Lula e a esperança de uma sociedade socialista,
a decepção.
O medo do retrocesso via judiciário...

Evito conversar com minha imagem refletida
naquele artefato mágico da infância.

As lutas viraram rotinas, e não são mais tão épicas,
- até conseguir cortar as unhas dos pés,
já é uma grande vitória.
Os remédios que me salvam,
- também da depressão -
são as amizades,
as conversas na mesa de bar,
e continuar sonhando, sempre,
um Sancho Pança, orgulhoso,
cevado a antidepressivos e ansiolíticos.

É recorrente lembrar,
- e me faz rir - 
a minha descoberta
aos cinco ou seis anos,
na casa da minha Tia Nete:
o espelho mágico.

E como na cantiga de minha infância:
esperar, esperar, esperar,
até a morte chegar!
quem sabe, como um presente,
no dia do meu próximo aniversário.

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